Corredor da morte para motociclistas

Há poucos dias, a imprensa publicou matéria sobre estudo realizado na Universidade de Berkley, na Califórnia, relativo aos acidentes com motocicletas no chamado corredor, o espaço que fica entre os veículos no trânsito. Segundo a pesquisa americana, se o motociclista mantiver uma velocidade baixa em relação aos outros veículos, rodar no corredor é relativamente seguro, mas recomenda velocidade máxima de 16km/h no corredor, portanto, fora da realidade brasileira e viável só com o trânsito parado.

A questão é o que está por trás desse tipo de matéria? Na prática, é um trabalho da assessoria de imprensa dos grupos que controlam a venda de motocicletas no Brasil, que estão cientes de que o número de acidentes com motocicletas está tomando proporções tão absurdas, e que é natural que exista o risco do tráfego no corredor ser proibido, como previa originalmente o Código de Trânsito.

A situação dos acidentes com motociclistas é tão dramática que, somente no primeiro trimestre de 2015, mais de 145 mil pessoas receberam indenização por Invalidez Permanente do DPVAT. Os acidentes com motos corresponderam a 80% das indenizações pagas, portanto, cerca de 116 mil, o que nos permite estimar que mais de 450 mil brasileiros vão receber indenizações em 2015 por invalidez permanente provocada por acidente com motocicleta.

Na matéria esqueceram de falar sobre, por exemplo, os pontos cegos, área em que o veículo desaparece da visão do motorista no retrovisor. No caso das motocicletas a passagem pelo corredor é uma sucessão de pontos cegos. O risco é gigantesco, principalmente na velocidade que passam. Outro aspecto é o número de motocicletas em relação aos demais veículos circulando. Enquanto na Califórnia são raras as motos, aqui elas já superam a frota de automóveis em vários estados. Sem falar no tipo de moto utilizada, preparo dos motociclistas e responsabilidade civil e criminal em caso de acidente nos EUA em comparação ao Brasil. Outro problema é que as motos param o trânsito, porque acidente com motocicleta quase sempre tem vítima e com frequência precisa de atendimento médico especializado, ambulância, etc…

Moto no Brasil não é meio de transporte mas uma epidemia que está ceifando vidas e deixando centenas de milhares de pessoas inválidas. Proibir o tráfego pelo corredor é apenas uma das medidas urgentes para reduzir acidentes com motocicletas. A questão de precisa de agilidade porque quanto mais demorarmos mais difícil será combater.

Esse estudo de Berkley, da forma como está sendo usado no Brasil, é mais uma iniciativa sorrateira da indústria para tentar justificar o injustificável. Enquanto eles juntam dinheiro, a sociedade junta os corpos.

Rodolfo Alberto Rizzotto
Formado em Direito e Economia, coordena o programa de segurança nas estradas SOS Estradas e edita o site www.estradas.com.br, onde é possível acompanhar os temas de seus artigos também em arquivos de áudio, disponíveis para download.

fonte

FacebookTwitterGoogle+WhatsAppCompartilhar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *