Velocidade mais baixa para cidades mais humanas e seguras

Velocidade mais baixa para cidades mais humanas e seguras

Para especialista, CET acertou em reduzir limites de velocidade nas marginais

Por Luiz Carlos Mantovani Néspoli* – No site da Companhia de Engenharia de Tráfego estão descritas as razões da redução de velocidade nas marginais do Rio Tietê e Pinheiros. Trata-se de um assunto técnico do âmbito da engenharia de tráfego. Logo, nada mais sensato e prudente ouvir exatamente a empresa que reúne um dos melhores quadros de engenheiros de tráfego do país.

Que a velocidade é uma das principais causas de acidente de trânsito e, dentre as causas, é a que gera os maiores danos, muitos países já sabem. O Relatório do IRTAD (International Traffic Safety Data and Analyis Groups) editado pelo International Transport Forum,organismo vinculado à OECD (Organisation for Economic Co-operation and Development), que organiza informações de programas de segurança viária e estatística de acidentes em mais de 30 países (europeus, asiáticos e norte-americanos), mostra que em todos eles foram adotadas medidas de redução dos limites de velocidade em todas as vias urbanas para, pasmem, 50 km/h. São países que, ao contrário do nosso, vem reduzindo paulatinamente as mortes no trânsito há décadas.

Estudos indicam que reduções de velocidade levam a

redução de mortes e feridos e que, ao contrário, o aumento conduz a mais mortes e mais feridos, como indica a tabela:

Variação da Velocidade Média Redução de Velocidade Aumento de Velocidade
-10% -5% -1% 1% 5% 10%
Gera mudança em:
Mortes -38% -21% -4% +5% +25% +54%
Feridos Graves -27% -14% -3% +3% +16% +33%
Outros Ferimentos -15% -7% -1% +2% +8% +10%
Danos Materiais -10% -5% -1% +1% +5% +5%

 

Experiências realizadas em São Paulo e em outras cidades brasileiras também já confirmaram esse prognóstico quando promoveram alterações nos limites de velocidade.

O trânsito seguro é um direito de todos e um dever dos órgãos de trânsito (art. 1º do Código de Trânsito Brasileiro). Vale lembrar que o Brasil ocupa ainda um lugar indesejável no ranking de mortes no trânsito. Segundo recente publicação do DATASUS, em 2013 morreram cerca de 43 mil pessoas, o que significa 22 mortes para cada 100 mil habitantes, contra 3,7 no Reino Unido e 4,1 no Japão, por exemplo. O índice da cidade de São Paulo é de cerca de 11.  Portanto, é obrigação do Estado brasileiro promover a segurança viária, pelo flagelo que representa para as famílias brasileiras, ou ainda pelo custo social associado, hoje em mais de 70 bilhões de reais por ano (valor atualizado do estudo ANTP/IPEA).

Se medidas de redução de velocidade são reconhecidamente no mundo todo benéficas à sociedade, afinal, porque tanto alarido com a medida tomada recentemente pela CET nas marginais Tietê e Pinheiros? Nesta segunda feira (20), jornais, rádios e tvs trataram o tema da maneira mais desprezível possível, dando vozes apenas a motoristas, repórteres de campo e âncoras, totalmente despreparados sobre o tema. Com isso, só se ouviu senso comum. Até a OAB entrou na história para acionar a Prefeitura no Tribunal (!!). Tomara que pelo menos o Tribunal busque mais informações junto ao meio técnico.

Como a apresentação da CET bem elucida, no cálculo do fluxo de veículos há três variáveis intervenientes: velocidade, densidade de tráfego e volume de tráfego. A densidade se mede por veículos por unidade de distância (veículos por quilômetro) e o volume pela quantidade de veículos que passam por unidade de tempo (veículos por faixa de tráfego por hora).  O que importa para a fluidez do trânsito é a passagem da maior quantidade de veículos por unidade de tempo. E o que diz a engenharia de tráfego? Que a velocidade média que produz o melhor resultado é de 50 km/h!

Ocorre que é mais intuitivo para as pessoas que uma maior velocidade leva a uma maior fluidez. Mas isso só é verdade até certo valor de velocidade, que é 50 km/h. A partir desta velocidade, a vazão é menor. O cidadão comum e o motorista acham que a redução de velocidade levará a congestionamento, o que não é verdade. O que leva ao congestionamento é o excesso de veículos na via, quando a densidade de tráfego corresponde a praticamente um veículo encostado no outro. Claro que a imprensa vai captar exatamente esta impressão que, obviamente,a utiliza para engrossar o caldo e negar o benefício da medida. Pena que em cada matéria da imprensa não se deu espaço suficiente para a discussão do essencial: a redução de acidentes e mortes. Deixou-sede esclarecer e de educar, colocando apenas o senso comum (ou preconceito) a dominar o assunto.

As pessoas acham que andando mais devagar vão perder muito tempo. Claro que haverá um aumento de tempo de percurso. Na marginal Tietê, por exemplo, um percurso completo custará, agora, uns 4 a 6 minutos a mais. Mas, a pergunta certa seria se vale a pena aumentar o risco para se ganhar este tempo. A estatística nossa diz que não. Ainda matamos muito mais do que os piores países do mundo e isso é uma vergonha.

Para piorar tudo, vem logo a história da indústria de multa. Uma sociedade que prefere discutir por este ângulo, em vez de discutir o flagelo que o acidente representa para milhares de famílias todos os anos, que consome grande parte dos recursos de saúde (dinheiro público) e que onera a Previdência (dinheiro público), ainda não entendeu o problema. O pior de tudo, ao que parece, é que os grandes canais de comunicação também não, lamentavelmente.

Estamos acostumados a andar mais rápido, é verdade. É um hábito adquirido ano após ano, que terá que mudar, o que vai requerer maior atenção e mais tolerância no começo. Porém, com o tempo, todos se sentirão mais confortáveis, menos tensos e estressados e mais seguros. Os pedestres, os idosos, os ciclistas, os cadeirantes e as crianças, que são os mais vulneráveis no trânsito, irão agradecer.  A cidade para a dimensão humana, eis o nome da canção.

 *Luiz Carlos Mantovani Néspoli é superintendente da Associação Nacional de Transportes Públicos (ANTP)

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